FRAGMENTO II: OS PAIS

Autor: Marcos Ticiano A. Sousa
(...Continuação)


Dona Ângela, nascida em Portalegre, mulher simples e cuidadosa com sua prole, foi, no início do casamento, algumas vezes confundida como a filha do marido Donato. A altura média, tez alva, cabelos castanhos e lisos, e olhos azuis qualificavam sua rara beleza na juventude.
Estudou até o equivalente ao quarto ano do ensino fundamental, desempenhando, porém, papel fundamental no aprendizado educacional de todos os filhos, que, aos seis ou sete anos, sempre preparados estavam para ingressar no ensino fundamental, vez que na cidade não havia a chamada pré-escola. Além disso, costume não tão comum na região, logo cedo, ensinou as crianças a ajudar nos afazeres domésticos, até por não ter possuído auxiliar para tal.
Coser, bordar e fazer crochê eram atividades de que Ângela mais gostava, o que a fazia acrescentar sempre um detalhe a mais nas vestimentas dos seus descendentes. Habilidades logo apreendidas por sua filha Cândida. Lozato foi agraciado com um álbum confeccionado por sua mãe, em que, sem dispor de máquina fotográfica, a infância do menino até os três anos foi retratada e documentada, minuciosamente, pela utilização de gravuras recortadas de revistas e por pequenos textos escritos manualmente, em aflorada criatividade para a época e lugar.
O marceneiro Donato, ex-combatente do Exército, também nascido naquela cidade, sisudo que só ele, tinha porte alto, porém magro, sua pele era branca, cabelos pretos e lisos, olhos castanhos, barba quase sempre feita, orelhas grandes como suas mãos e pés. Estes tanto que lhe provocavam algumas pilhérias de alguns desocupados.
Era homem sincero e tinha como uma de suas principais marcas a maneira proba e despretensiosa de lidar com os amigos e a comunidade, de modo que, em sua oficina de marcenaria, todos conseguiam executar ou fazer com que ele realizasse pequenos serviços e reparos sem nenhum custo cobrado. Casou-se aos quarenta anos de idade, após estadas na Capital, para o serviço militar obrigatório, e em outras cidades do Estado, em serviços profissionais especialmente a marcenaria.
De fato, representavam a marcenaria e a carpintaria seus ofícios principais, dos quais obtinha o sustento de sua família e pelos quais era bastante reconhecido, ao fabricar, montar e consertar móveis, portas, janelas, artefatos domésticos de madeiras, alguns instrumentos musicais, a exemplo de violão e bateria e tambores acessórios, além de boa parte de suas ferramentas, e até caixão de defunto. Estes trabalhos eram executados do modo menos mecanizado possível, a ponto de Donato contratar mais um ou dois marceneiros quando recebia uma encomenda maior, sujeita a um prazo menor. Isto também acontecia quando alguém da cidade morria à noite e ele era chamado às pressas para fabricar o caixão do falecido, situação que durava toda a madrugada.
Músico autodidata, ele tocava clarinete, o que o fez mesmo a formar uma banda nominada “Dato e seu Conjunto”, animando bailes e festas na cidade e seus arredores. Animava e participava frequentemente de tertúlias[1] com seu amigo e cunhado, o exímio saxofonista Salatiel.
No entanto, havia um inconveniente. Algumas pessoas começaram a importunar Donato, após descobrirem que ele não conseguia tocar se sentisse o cheiro de limão no ambiente. O odor, ou se alguém o mostrasse esta fruta, deixava a boca do músico cheia de saliva, o que impedia a continuação de sua performance.
– Esses cabas[2] safados! – murmurava ele, enquanto tentava drenar o líquido do instrumento.
Donato estudou até o equivalente, hoje, ao sexto ano do ensino fundamental. Mas sua astúcia e inteligência emanavam na visão de mundo que possuía e na capacidade de resolução dos problemas práticos da sua comunidade. Alguns episódios explicam esta exposição. O primeiro deles ocorreu em viagem com um amigo a uma cidade polo do Estado vizinho para comprar materiais necessários à marcenaria. A meio caminho do destino, os dois viajantes almoçavam enquanto, na mesa próxima, quatro homens armados até os dentes discutiam acerca de qual seria o melhor relógio do mundo. Desta discussão, deduziram que o melhor relógio seria o do “Big Ben”, do Parlamento inglês, o qual em cem anos só atrasara um minuto. Foi aí que Donato levantou-se, a despeito dos apelos do amigo a que ficasse quieto, e surpreendeu os forasteiros.
Senhores, discordo da conclusão de vocês, pois o melhor relógio do mundo é o que foi usado para provar que o “Big Ben” só atrasou este tempo em cem anos.
– O amigo aí tem toda razão... – afirmou um dos homens. Surpresos, ele e os demais, então, se levantaram e o cumprimentaram.
Noutra ocasião, estava sendo instalada uma porta de enrolar em um ponto comercial da cidade pelo técnico de manutenção, representante do fornecedor. Este trabalho já se arrastava por vários dias, e se tornava sem fim, mas a porta insistia em não desenrolar totalmente, devido a certo desalinhamento. Sem êxito, e mais perdido que cego em tiroteio, o técnico resolveu retornar a fim de consultar e buscar novos meios junto ao fabricante para a adequada instalação. Donato, que era amigo do dono do estabelecimento e que, ao passar pelo local, observara a movimentação, se propôs a resolver o imbróglio. Sem alternativa imediata, a proposta foi aceita. Poucas horas depois, a porta estava abrindo e fechando sem nenhuma resistência, tão leve quanto um pássaro em voo.
Outro episódio ocorreu quando Donato se dirigia à bica, ao final do dia, para o banho e transporte de água. Atravessando uma obra em que trabalhadores construíam um extenso muro, chegou-se a um deles e afirmou que a obra não amanheceria de pé, quando foi retrucado. Não deu outra; os trabalhadores o procuraram no dia seguinte, acusando-o de ter derrubado a construção. Ele teve de explicar que o muro caiu porque a forma com que usavam o prumo[3] não estava correta, uma vez que o instrumento deveria se referenciar sempre à base da parede e não à fileira de tijolo anterior, pois, assim, o erro natural de aproximação do instrumento vai-se acumulando.
A Donato atribuía-se a fama de contador de estórias, e algumas delas, garantia ele, eram verídicas. Dizia que, certo dia da sua adolescência, chovia muito, quando começou a cair água do telhado para dentro de casa em várias goteiras ao mesmo tempo. Sua mãe, aperreada, pediu então que, mesmo sob chuva, subisse na casa para verificar e, se possível, corrigir o problema. Resmungou, mas obedeceu. Em pouco tempo, as biqueiras cessaram.
– E aí, Donato, qual era o problema? – questionou a mãe aliviada.
– Era um gato "dormindo" na calha – respondeu com certo desdém.
– Como assim, menino!
– Tava em cima do buraco do cano por onde desce a água pra rua. Cutuquei ele com uma vara e o danado saiu correndo.
Até hoje, as pessoas se reportam a essa estória, ao se referirem a alguém que dorme muito: "dorme mais que o gato de Donato".
Para contar estórias, Donato não era brincadeira! Narrava também que, ao tempo do serviço militar obrigatório na Capital, estava ele de folga em Portalegre, a visitar a família. Um dia antes do retorno, no momento em que foi ao quintal verificar como estavam as fruteiras, ouviu um som nas proximidades:
Amanhã eu vou, vou eu amanhã;
Amanhã eu vou, vou eu amanhã...
Chegando o mais próximo que pôde, não conseguiu enxergar nenhum aparelho convencional de reprodução sonora, senão algo bem intrigante: um espinho de um galho de limoeiro que, em seu raio de movimento, e ao balanço, para lá e para cá, provocado pelo vento, contatava um pedaço velho de disco vinil, long play, de Waldick Soriano, exatamente na faixa da música Eu Também Sou Gente, em que consta:
Amanhã eu vou embora;
Vou por esse mundo afora...


[1] As tertúlias, comuns nesta época e região brasileira, designavam reuniões dançantes de curta duração animadas por vitrolas ou, acusticamente, por músicos profissionais ou amadores.
[2] Caba é um transformado de cabra, no sentido de homem comum ou vulgar.
[3] Prumo é o instrumento de trabalho do pedreiro que permite o alinhamento vertical da parede ou antepara em construção.

Comentários

  1. Olá MTiciano,

    Estou a responder ao pedido que me fez para comentar estes dois contos.
    Na minha opinião os textos não se tratam de dois contos, mas sim de um romance que pretende ser escrito (ou já está).
    Gostei do que li...falta a continuação. A historia do limão é boa, quando se fala em coisas serias é bom ter algo para desanuviar, não é que o leitor a retenha, mas fará que compreenda melhor aquilo que se questiona.
    Uma pergunta: o Brasil que descreve é o Brasil de hoje ou é o Brasil do passado?

    ResponderExcluir
  2. Olá Tiago, muito grato estou pelo seu retorno.
    Este é o Brasil de 40 ou 50 anos atrás, mas enfatizo que no interior dos Estados do Nordeste a vida ainda é pacata e segue sem muitas mudanças nos costumes, apesar das inegáveis transformações econômicas dos últimos anos. Saliento também que estes locais preservaram alguns dizeres e sotaques só existentes no português arcaico (ou transformado muitas vezes, creio, pelos nossos heróis africanos e indígenas). Isto será evidenciado no seguimento dos posts; e ocorreu devido à menor influência das imigrações italianas, alemãs, espanholas, japonesas, etc., tão comum nas demais regiões brasileiras. Além, claro, da distância destes Estados nordestinos às fronteiras dos países hispânicos. Há quem concorde que a melhor preservação do português do século XVII ao XIX encontra-se no interior do Nordeste, algo que nem Portugal dispõe mais.
    Quanto ao termo Conto, concordo que faltam elementos e um deles é a dependência entre os posts.
    Mais uma vez obrigado.

    ResponderExcluir
  3. Olá Ticiano!
    Parabéns pelos textos. Faço votos para que você continue exercitando esse talento, meu amigo!

    Obs.: A expressão "Dorme mais que o gato de Donato" (seguida da história, obviamente), já entrou para o meu vocabulário... Um abraço, até a próxima!

    ResponderExcluir
  4. Cesar, muito obrigado pela força.
    Um abraço.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PEÇA JUDICIAL: CONTESTAÇÃO TRABALHISTA OAB (2015.2) – MODELO DE RESOLUÇÃO

PEÇA JUDICIAL: CONTESTAÇÃO TRABALHISTA OAB (2015.3) – MODELO DE RESOLUÇÃO

PEÇA JUDICIAL: AÇÃO TRABALHISTA DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO – MODELO DE RESOLUÇÃO