FRAGMENTO I: NASCIMENTO E INFÂNCIA

Autor: Marcos Ticiano A. Sousa


Numa manhã ensolarada de dezembro de 1960, tal qual as da maior parte do ano na região, Ângela enfim deu à luz. Com quase cinquenta centímetros de comprimento e quatro quilogramas e meio de peso, o primogênito Lozato chegou para alegrar o casal. Mas não foi tão simples assim.
Donato já havia alterado o seu calmo estado habitual, diante das dificuldades enfrentadas pela esposa com o parto, naquela cidade onde sequer havia um médico. O trabalho se arrastara sem êxito por três dias, até que a parteira, Clara, conseguiu extrair a fórceps a criança, que só recobrou a cor, o choro e os movimentos no momento em que extravagantes exercícios foram realizados. O bebê, feito um peso a ser arremessado, foi alçado, girado no ar várias vezes e jogado sobre a cama, sem, contudo, surtir o efeito desejado, o que só veio ocorrer no momento em que foi imerso em bacia d´água fria, fazendo-o volver à vida efetiva.
Um ano e meio após o nascimento de Lozato, nasce sua irmã Cândida, e o casal continuou nesta toada até 1972, quando Ângela descansou[1] do seu sétimo e último filho.
Foi na região serrana potiguar, cidade de Portal Alegre, que o garoto nasceu e viveu sua infância e adolescência. Lá aprendeu as primeiras lições de vida, dentre elas, a marcenaria com seu pai Donato, ao fabricar seus próprios brinquedos das sobras de madeira. Bonecos e pequenos móveis como mesas, cadeiras, camas, sofás, guarda-roupas e baús eram confeccionados para montagem de compartimentos domésticos, a imitar os fabricados mediante encomenda por seu genitor. Brincar de casa era um dos passatempos favoritos. O garoto Lozato, após arrumar seus móveis, voava alto, em que alternava as brincadeiras com a permanência, horas a fio, deitado ao chão a observar suas criações – confecção e arranjo dos utensílios domésticos – na tentativa de arremedar o mundo real. Nesta fase, o menino brincava sozinho ou com sua irmã Cândida.
Por volta dos seis anos de idade, Donato já levava seu pimpolho para os mais variados lugares, além da oficina de marcenaria. Um deles era a ida para tomar banho e buscar água na bica[2] – espécie de fonte onde as pessoas da cidade se banhavam e pegavam água para o seu consumo doméstico. E o banho da bica foi algo de enorme aprendizado para Lozato, eis que todos haviam de ficar nus, inclusive ele e o pai, situação que, após certo tempo, se tornou normal, apesar do extremo acanhamento inicial. Outro consistia na saída para colher a rama, alimento da pequena criação de caprinos – geralmente uma cabra e pequenos filhotes que, ao crescerem, viravam reprodutor, ou reprodutora leiteira, ou eram, os demais, abatidos e consumidos domesticamente. Acompanhar seu pai a um pequeno sítio, a fim de buscar alguns frutos quais banana, manga e caju, era outro desses aprendizados. Em todos eles, particular situação, fruto das primeiras inquietações infantis, ocorria nos trajetos, quando Donato era bombardeado por indagações e mais indagações a respeito dos mais diversos assuntos.
– Papai, quem fez as pedras?
– Foi Deus, meu filho.
– E quem fez o céu?
– Foi Deus, meu filho.
– Quem fez essas ladeiras?
– Foi Deus – já visivelmente importunado.
– Papai, quem fez estas casas? – perguntava Lozato noutra ocasião.
– Foram os homens.
– E quem fez as árvores?
– Deixe de ser besta, menino! Ora, ora! – e o assunto estava encerrado naquele dia.
Nessa época, Lozato ganhou de seu padrinho, Dodó, um borrego mocho[3], que se juntou à pequena criação de caprinos. Apegado ao bichote, o menino com ele muito se divertia, pois ensaiava montarias e consequentemente muitas quedas. Isto, enquanto o danado não aprendeu a dar marradas. A partir daí, os sentimentos do dono se inverteram, pois que, ao avistá-lo, o borrego já corria em direção ao seu traseiro e, pei, estava no chão; levantava e, pei, no chão; levantava e corria e, pei, novamente no chão, permanecendo atônito até encontrar um abrigo. Donato teve de devolver o animal, mal acostumado, pois não mais servia ao moleque, que não parava mais de pé.
Na verdade, o carneiro estava apenas aprendendo suas primeiras lições daquilo que já é o seu dote natural. Sabe-se que o ovino já tem instinto lapidado para a luta por meio de seu crânio, bastante reforçado na parte frontal. Vejam só que este animal, adulto, está preparado a botar para correr um boi que tentar desafiá-lo ou é capaz de derrubar frutos maduros de uma árvore de médio porte, como mangueira, cajueiro ou goiabeira, em consequência do impacto da marrada em seu tronco – isto quando se acostuma a fazer aí seus treinamentos.
Os brinquedos feitos de plásticos e de outros artefatos tais como, carros, lanternas, velocípedes, etc., estes só existiam na imaginação de Lozato, originada do desejo de adquiri-los nas miçangas da feira de domingo, ou quando via os filhos dos bacanas com algum.
Nessa dinâmica, o garoto vivia, agora, com mais duas irmãs, Mercês e Adélia, em que alternava brincadeiras e afazeres, tanto domésticos quanto com elas. Botar as irmãs para dormir, varrer casa, espanar móveis, lavar pratos começava a fazer parte da sua rotina diária, já não tão lúdica como antes...


[1] Descansar, nessa região, também significa parir, dar à luz.
[2] Bica nome dado ao lugar onde se localiza a fonte de água tradicional de Portal Alegre, em que a água brota e escorre por uma bica. Outrora, escorria em duas bicas, uma destinada a um compartimento feminino e outra ao masculino.
[3] Filhote de carneiro ou cordeiro sem chifres.

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